segunda-feira, agosto 14, 2006

Circuito Cineclubista de Estréias ou Breve em um Cineclube Perto de Você!








De 16 de Agosto a 14 de Setembro de 2006, vinte e dois Cineclubes de seis estados –RJ (16) / SP (2) / PB (1) / RN (1) / RS (1) / SC (1) – participarão da primeira edição do Circuito Cineclubista de Estréias. Serão exibidos dois filmes produzidos durante a 26a. Jornada Nacional de Cineclubes, evento onde foi concebido. São eles:

“Camareira”, de Zonda Bez (5 min, digital, 2006)
“Transtorno”, de Pablo Cunha, Daniel Bosi, Fabíola Trinca, Márcio Bertoni, Bruno Cabús (4 min, digital, 2006)

Uma vez por mês, os cineclubes participantes do Circuito somam às suas programações e curadorias normais um ou mais curtas-metragens inéditos, em um programa de até 10 minutos, a ser exibido no formato DVD. A curadoria do Circuito é alternada entre seus estados participantes, sendo a primeira carioca.

Talvez o mais surpreendente do Circuito Cineclubista de Estréias seja a possibilidade de verificarmos que a exibição alternativa de filmes é uma atividade que aos poucos começa a fazer frente aos grandes exibidores de cinema. Um curta-metragem, em média, consegue ser exibido ao longo de um ano de carreira em festivais a um público de aproximadamente 3 mil pessoas, se participar de 10 eventos de grande porte. Estima-se que, nesta primeira edição, os curtas participantes tenham um público equivalente.

Os cineclubes participantes gravarão suas sessões para posterior montagem de um curta-metragem e contabilizarão o número de espectadores presentes em cada uma das sessões a título de registro nas empresas que lidam com números de mercado. Ambas as ações demonstrarão a abrangência e a diversidade do cineclubismo brasileiro bem como a medida da adesão do público.

Para o Rio de Janeiro, o Circuito Cineclubista de Estréias tem um sabor especial. Participaremos com o expressivo número de 16 cineclubes; seu lançamento acontecerá na quarta-feira dia 16 de Agosto, na comemoração de 4 anos de aniversário do Cachaça Cinema Clube; seu encerramento será na sexta-fera dia 14 de Setembro com o Cineclube Ankito; e, neste ínterim, na quinta-feira dia 31 de Agosto, o Cineclube Tela Brasilis promoverá uma sessão especial em comemoração aos seus 3 anos de aniversário. Será exibido na Cinemateca do MAM, às 18:30hs, o longa-metragem "Sete dias de agonia (O encalhe)", de Denoy de Oliveira. O filme, praticamente desconhecido hoje em dia, fez interessante carreira cineclubista à sua época. A intenção é justamente fazer uma sessão para que se debata o cineclubismo carioca e brasileiro, que passam por intenso e organizado processo de recrudescimento.

Prova disto, é que no Rio de Janeiro quinze cineclubes deram início aos trâmites legais para a constituição da ASCINE (Associação dos Cineclubes do Rio de Janeiro). No âmbito nacional, recentemente, a ANCINE encaminhou aos cineclubes uma proposta de resolução para regulamentação e reconhecimento da atividade, definindo e estabelecendo normas de existência e funcionamento; e o Ministério da Cultura, através de sua Secretaria de Audiovisual lançou o edital de Implantação de Pontos de Difusão Digital.

Portanto, o Circuito Cineclubista de Estréias vem para unir em uma ação conjunta cineclubes de todo o Brasil que trabalham de diferentes formas a exibição de filmes. Para além de preferências por certas metragens ou gêneros, estejam em parceria com centros culturais ou na rua, quer possuam equipamentos modernos ou até mesmo promovam sessões sem tela, a prática cineclubista vem, através do Circuito, provar sua força. O “circuito alternativo de exibição” não é alternativo por ser o lado B das salas convencionais de cinema. Em sua diversidade de propostas, os cineclubes oxigenam a programação cultural dos locais onde se instalam. Isto é, promovem um novo tipo de relação entre seus freqüentadores e destes com as obras audiovisuais, seus realizadores, e os próprios exibidores (os cineclubistas). O encontro direto e visceral de todos estes agentes é o caráter alternativo dos cineclubes.


Por fim, gostaria de destacar o apoio da nascente ASCINE, e dentro dela o prazer do trabalho em parceria com os amigos Dario Gularte e Frederico Cardoso para a realização desta primeira edição, além de agradecer a adesão e disponibilidade dos 22 cineclubes participantes.

Rodrigo Bouillet
Diretor Administrativo ASCINE
Coordenador do Circuito Cineclubista de Estréias (RJ)
Cineclube Tela Brasilis – Rio de Janeiro


Nos encontramos de norte a sul deste Brasil !!!


Quarta, 16 de Agosto de 2006
20:30 Cachaça Cinema Clube (RJ)

Sexta, 18 de Agosto de 2006
19:00 Filé de Peixe (RJ)

20 de Agosto de 2006
19:00 Cineclube Natal (RN)

Sexta, 25 de Agosto de 2006
19:00 Cinema Com Batuque (RJ)

Quarta, 30 de Agosto de 2006
19:00 Cineclube Lanterninha Aurélio – Centro Cultural CESMA (RS)
19:00 Cine UFSCar (SP)
20:00 CineZona (RJ)
20:00 Cineclube Mate Com Angu (RJ)

Quinta, 31 de Agosto de 2006
9:30 e 14:00 Cine Guandu (RJ)
18:30 Cineclube Tela Brasilis (RJ)
19:30 Cineclube Sobrado Cultural (RJ)
23:00 Cineclube Beco do Rato (RJ)

Sexta, 01 de Setembro de 2006
18:30 Cineclube Sem Tela (RJ)
20:30 Cineclube Curta o Curta (RJ)

Sábado, 02 de Setembro de 2006
16:00 Cineclube ABD&C (RJ)
19:30 Cine Brechó (RJ)

Domingo, 03 de Setembro de 2006
Cine Santa (RJ)

Terça, 05 de Setembro de 2006
19:00 Cineclube Buraco do Getúlio (RJ)

Quarta, 6 de setembro de 2006
19:30 Tintin Cineclube (PB)

Domingo, 10 de setembro de 2006
20:00 Cineclube Votorantim (SP)

Quarta, 13 de setembro de 2006
19:00 Plasticine Clube (SC)

Sexta, 14 de Setembro de 2006
19:00 Cineclube Ankito (RJ)

quarta-feira, julho 19, 2006

SEGURA A SAIA QUE O VENTO É QUENTE






Santa Maria – RS. Não bebi muito chimarrão, mas tomei muito cinema na veia. Não tenho dúvida sobre o papel que o cineclubismo tem na sociedade brasileira. Os cineclubes presentes na Jornada desse ano lá no canto de baixo do país mostraram que estavam representando muito mais que eles próprios. Representavam os mais de 100 cineclubes que não puderam ir e, mais que isso, representavam seu público. Aí mora a principal diferença entre as salas comerciais de cinema e os cineclubes. Somos um corpo presente nas vísceras da sociedade e estamos em contato direto com as ruas, não porquê vendemos pipoca, refrigerante e estampamos filmes nas telas, mas porquê dialogamos permanentemente com quem recebe esses filmes e procuramos interagir com os problemas, alegrias, mazelas, tristezas, glórias e memórias que nos rodeiam e procuramos contribuir para que nosso espaço - rua, bairro, cidade, país, planeta - seja cada vez melhor de se viver. Não é a toa que o Brasil foi país sede dos dois primeiros encontros Ibero-Americanos e será do terceiro. Não é a toa que o Brasil, na figura do nosso presidente reeleito do CNC, Antonio Claudino de Jesus, ocupa a vice-presidência da Federação Internacional de Cineclubes. Nossas ruas, nossos cineclubes estarão em rede mundial.

Mas ficou claro para todos os presentes em Santa Maria que a organização do movimento cineclubista deve iniciar no umbigo onde as atividades de cada cineclube acontecem e seguir com as demandas regionais que convirjam num movimento nacional poderoso. Poderoso pois não há canto desse país que não abrigue um cineclube. Poderoso pois chegaremos a estabelecer um circuito de exibição alternativo que leve, principalmente, a nossa cinematografia onde nunca esteve e com a freqüência nunca experimentada.

O circuito CNC / ABD testou esse potencial em 2005 e mostrou que pode dar certo e voltará com força total ainda em 2006, com a simbólica exibição seguida de debate de um programa em todas as capitais brasileiras no mesmo horário de Brasília. 10 cineclubes fluminenses já articulam circuito de estréia curtametragista. A idéia é simples: os cineclubes permanecerão com suas programações e curadorias acrescidas de um curta em estréia. E além de ser simples, a idéia também é inclusiva. O cineclube brasileiro que quiser entrar no jogo, é só dizer que já é.

E já que é, quem quer estrear curta e ver seu trabalho assistido por milhares de pessoas que se apresente e quem quer ver curtas estreando no seu quintal que se apresente também. Aprendemos com Santa Maria e vamos ventar um vento quente por todo o país, como é o Vento Norte que deu nome à chapa prestigiada com a totalidade dos votos possíveis na plenária de eleição. Segure a saia que o movimento cineclubista pede passagem.

Frederico Cardoso
Diretor de Formação e Projetos – CNC
Cineclube Beco do Rato / Cinemaneiro

segunda-feira, julho 03, 2006





A globalização jorra uma cultura sintética devastadora. É a relação do dominador e do dominado, o instinto primitivo da superioridade atuando, desde a microfísica do poder, em proporções colossais. O poder panóptico, citado por Foucault, hoje é real. Vivemos o Big Brother no cotidiano. é a síndrome de Truman. Parece que estamos sendo vigiados o tempo todo, e cada membro da sociedade é um potencial personagem do livro “1984”, que depois virou filme. E dentro de cada um há um transgressor, que será inevitavelmente lobotomizado pelo Big Brother.

E vem o clássico diálogo da obra: “O Big Brother existe? Claro que existe. Mas existe como eu existo? Não, você não existe.”. Este personagem hoje existe em milhões de seres humanos. É real. Presente-passado, mal-passado. Sangra a cada fatia, dói a cada poesia. Conquistou milhares de telespectadores, devidamente “globotomizados”. A mídia jorra uma cultura enlatada nas mentes fracas e oprime qualquer tipo de personalidade, massificando a sociedade com lixo, lixo cultural. A indústria cultural hoje tem proporções catastróficas, e está deixando a humanidade esquizofrênica.

Um filme é o retrato de um povo na tela, ou pelo menos passa a “alma” desse povo. Os filmes que chegam aos festivais internacionais cumprem o papel de representar o país. O cinema brasileiro é respeitado internacionalmente devido ao talento individual dos artistas brasileiros. A iniciativa dos componentes do Cinema Novo, na década de 60, abriu os olhos do mundo para o cinema brasileiro, e conseqüentemente para o Brasil. Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e tantos outros cineastas consolidaram, através de suas respectivas iniciativas de “uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”, um gérmen de vida inteligente no cinema brasileiro, e por isso são tão reverenciados por jovens cinéfilos, realizadores ou interessados em cinema brasileiro, interessados na cultura brasileira, interessados no Brasil. Em tempos de Copa do Mundo de Futebol é válida a pergunta: o que toda a alegoria de bandeiras e fitas plásticas verde-e-amarelas penduradas pelas ruas, ato chamado por alguns de “patriotismo”, representa para o país? Patriotismo, de fato, não seria uma real valorização de ícones da literatura, da música, das artes plásticas, do teatro e do cinema no Brasil? O futebol tem sua devida importância, mas a cultura deveria ter uma valorização semelhante. O presente trabalho, a partir de teorizações sobre cinema, identidade nacional, entre outros itens, aliados a uma discussão sobre jornalismo cultural, visa estudar a interferência de um programa de TV educativa no importante papel de resgate da identidade cultural brasileira na época da globalização.

A televisão no Brasil hoje tem um poder absoluto. Aquela piada que diz, “se não está na telinha, não existe”, acabou se tornando uma cruel verdade. É um meio de comunicação poderosíssimo, que dita o que é ou não verdade. A influência da televisão sobre a mente humana é clara e evidente em inúmeras sociedades do ocidente. Hoje esse meio de comunicação é a meta profissional de milhares de jovens, em busca da fama, do glamour, do sucesso, do dinheiro. Agências de figuração e elenco de apoio abarrotam-se de dinheiro através dessa ilusão que a televisão defende. E os brasileiros estão sendo cada vez mais cegados pelos pixels, pelas listras videográficas horizontais que compõem o simulacro de vida que guia suas vidas. Essa diabólica mistura de luzes verdes, vermelhas e azuis consolida as imagens que sintetizam o mundo e interferem na percepção do ser humano.

Na iminência de uma hecatombe (pois a qualquer momento o mundo pode ser explodido pela própria humanidade), colapsos sociais estão para surgir, e todos parecem ignorar esse fato. O ser humano está louco, cada vez mais esquizofrênico. A vida se tornou um caos desenfreado. Todos estão cada vez mais neuróticos, sem conhecer os próprios vizinhos. Pessoas que dividem o mesmo perímetro urbano não trocam uma só palavra. Vive-se hoje uma “vida-vídeo”, hermeticamente desumana. É preciso encerrar a sintética cultura da síntese recorrente. É preciso retomar alguns velhos hábitos, como o próprio questionamento da existência, por exemplo. O ser humano está cada vez mais distante de si mesmo. Parece que acreditou realmente ser algo dissociado da natureza. Parece que acreditou em excesso em seu potencial racional, lógico, matemático, científico. E essa cultura, unilateral, está monopolizando o pensamento humano mundial. É necessária uma resistência por parte de cada nação para que cada respectiva cultura nacional seja dignamente resgatada.

O Brasil precisa se ver, ver o que realmente importa: sua própria cultura. Os filmes brasileiros não podem estar segregados a uma ou duas semanas em cartaz no circuito comercial, ofuscados pelas mega-produções “pipoca” de Hollywood. Muito menos pelas produções internacionais rasas e fúteis que assolam a programação das emissoras de televisão brasileiras. Deve-se partir do governo alguma medida que legitime uma obrigatoriedade da valorização do produto audiovisual nacional. A verdadeira emancipação do Brasil, a cultural, se faz necessária, urgentemente.

Felipe Cataldo
ator, roteirista e diretor
+ organizador do cineclube "Filé de Peixe", na Tijuca

quarta-feira, junho 28, 2006

DA ASCINE PRO ESPAÇO.


O cineclubismo no Rio está em mais uma fase de mudança. A procura de unificação mantendo a não padronização-pasteurização continua sendo a nossa máxima. Mas é fato que só a metódica organização das nossas propostas conjuntas e a troca permanente das nossas experiências, pode nos levar a um território comum democrático, em vez de nos comunicarmos desde ilhas individuais.

A Ascine-RJ vem pedalando há algum tempo e está na hora de ligar o motor dos nossos sonhos num objetivo comum, o de poder existir, de fato, profissionalmente, utopicamente, enquanto circuito diferenciado e fundamental para a nossa cultura. Só um coletivo sólido e organizado pode trazer uma proposta diferente ao da politicagem, do lobby.

Estamos na véspera do encontro nacional de cineclubes em Santa Maria, é importante que tenhamos idéias claras sobre que projeto nacional buscamos e como o Rio se insere nisso; isto é mais uma auto-reflexão do que um pretenso conselho, mas sobre tudo é uma grande preocupação, pois só acredito na toma de consciência e na ocupação dos lugares que nos são de direito para avançarmos política e democraticamente sobre as dificuldades e burocracias que nos desalentam tantas vezes.

O projeto da Ascine-RJ,desde seu inicio, é a não-retórica mas a ação comum e concreta, não o debate esvaziado mas o agito nos pensamentos de quem procura algo diferente do que se lhe apresenta como opção única. Desta forma nos expandimos, caoticamente, como o cosmos, formando uma via infinita de experiências, encontros e soluções. Eis chegada a hora da procura do nosso equilíbrio, de uma interação e uma ação que nos leve a ocupar o nosso merecido lugar, o reconhecimento (e não o prestígio) e a existência (e não a sobrevivência).


Dario Gularte
Caixa Preta
Filmes+Música+Intervenções

terça-feira, junho 13, 2006

Ideologia: Ter pra viver?




As idéias nem sempre são o que parecem. Deve ser porque vivemos em um tempo diferente do que inspirou nossos antepassados. E acaba nascendo um certo “terror” nas pessoas quando assunto é ideologia. Afinal, o Séc. XX nos deu o que pensar a respeito. Mas não estou (nem estamos) disposto a reproduzir as “pregações” ideológicas que muitos partidos de esquerda e engomadinhos de ultra-esquerda teimam cagar em nossos ouvidos. Falo daquela que da tesão! Que faz querer engolir a televisão na hora do jornal nacional (ou o da Band, do SBT...)! Falo da ideologia que nos organiza. A idéia é pensar em quê se sustenta o cineclube e a mídia em que estamos inseridos. Isso nos mostra, e à outras pessoas, onde estamos pisando. Pensando nisso, não me recusei a expor o que penso sobre o norte desse novo (mas antigo) MOVIMENTO CINECLUBISTA!

Livre – O cine clube tem caráter libertador. Não pode se permitir à formação de grupos “sinistros”. Não devemos abrir mão da democracia em uma forma de comunicação que pode mudar correlações sociais inteiras. Nossa linguagem é franca, sem mentiras ou simulações. O compromisso é com a verdade (por mais que pareça “fora de moda”). E isso se constrói através da independência moral e artística e da vontade pessoal de cada um em fazer a diferença. Nunca esquecendo que liberdade é compartilhar.
Revolucionário – Os cineclubes tem um imenso potencial revolucionário, no sentido de poder, através da linguagem, subverter a ordem das coisas estabelecidas. Começando na arte e terminando na sociedade. E se é de um mundo melhor e um pouco mais decente, sem molecagens e sacanagem no lombo do povo que estamos falando, então não podemos nos negar essa responsabilidade.

Organizador - O que fazemos quando nos juntamos pra exibir filmes? E depois, quando resolvemos filmá-los? Nos organizamos. E outras pessoas se organizam. “Desorganizando eu posso me organizar”. A união (que como é de conhecimento de todos, também faz açúcar) faz a força!

Devemos nos reconhecer, mostrar na identidade as marcas da nossa própria ideologia, fruto da nossa geração. Uma geração tão forte quanto desacreditada, que só não vive maior contradição por estar no tempo presente. Pois como diria o grande sábio Seu Velho Ditado, o futuro a Deus pertence. Mas se o caso é agora, como escancaradamente se apresenta, então vamos botar a maquina cineclube pra funcionar ao infinito e avante. E quando o caldo começar a entornar nas calças dos donos dessa porra toda, os cineclubistas estarão lá para filmar e exibir!
Marcio Bertoni
é do mate com angu e finaliza "A estrada" seu primeiro curta-metragem.

segunda-feira, junho 05, 2006

Cinema Ambiental e Etnográfico: um argumento para múltiplas abordagens da geografia humana.

Por Leonor Bianchi,

Na semana em que é comemorado o Dia Mundial do Meio Ambiente, pelo menos dois festivais oficiais de cinema ambiental entram em cartaz no Brasil, consolidando, definitivamente a inserção no calendário de eventos brasileiros de cinema e vídeo, um tema que vem despertando interesse de um público cada vez mais amplo. O “filme ambiental” supera o estigma de que estaria fadado a estar associado a produções técnicas, documentais, didáticas, direcionadas a uma espessa segmentação de espectadores, como pesquisadores, interessados, e curiosos

A cada ano que passa surgem mais mostras e festivais de cinema e vídeo tendo como mote o ‘meio ambiente’. Hoje, Dia Mundial do Meio Ambiente, cabe refletirmos sobre a relação do cinema e do vídeo e, de maneira genérica, da mídia, no que diz respeito a responsabilidade social destes para com o assunto, que tem recebido, de forma merecida, atenção do poder público de países de todo o mundo.

No Brasil, alguns pesquisadores apontam os filmes realizados pelo português Silvino Santos – ele realizou mais de oitenta filmes, além de inúmeros negativos em vidro, entre os anos de 1910 e 1930 - como sendo o primeiro exemplo de cinema ambiental realizado no país. Silvino foi o primeiro a registrar com uma câmera de cinema, imagens da Amazônia Brasileira.

Numa perspectiva evolutiva, equipamentos fotográficos passam a fazer parte dos instrumentos de trabalho de muitos exploradores e cientistas e a ter uma tarefa fundamental nas operações estratégicas militares. Com as imagens cinematográficas não seria diferente. Logo que surgiu, o cinema foi introduzido em projetos de governos.

Porém, antes mesmo de Silvino Santos, o Major Luiz Thomas Reis, expedicionário da Comissão Rondon, que saiu Brasil à dentro para implantação do sistema telegráfico do Mato Grosso a Amazônia, já fotografava o Brasil indígena. Considerado um importante colaborador para a “historia visual” do Brasil e para a memória visual das comunidades indígenas brasileiras, Reis fotografou inúmeras aldeias, criando um acervo fantástico do Brasil Índio de diferentes regiões. Dedicando-se a missão até o ano de 1938, ele fez vários filmes com primor de técnicas que poucos dominavam na época. No grande projeto de integração nacional, um dos objetivos dos filmes e fotos feitos durante a missão era apresentar às sociedades urbanas como era o outro Brasil que elas não conheciam. “Os sertões de Mato Grosso (1914), Rituais e festas bororo (1916) e Ao redor do Brasil (1933)” são alguns dos filmes de Thomas Reis. O teórico francês Pierri Jordan afirma que ele foi o primeiro a realizar um filme etnográfico no Brasil.

Quem também contribuiu para essa memória visual do Brasil foi o antropólogo Roquette-Pinto (1912), que dirigiu o filme Rondônia, resultado de pesquisas entre os índios Pareci e Nhambiquara da Serra do Norte, no Mato Grosso.

Mais tarde, temos ainda, no Brasil, a presença de dois grandes estudiosos, que irão contribuir significativamente para este acervo de imagens: Lévi Strauss, que durante os anos 30 filmou diversos rituais dos índios bororo, dentre eles o mais conhecido, o funeral dos bororo; e Pierre Verger, registrando as comunidades negras do Brasil e da África, criando co-relações espirituais e culturais entre elas, através de suas ancestralidades. Tendo como base os exemplos acima, podemos afirmar que a perspectiva ambiental e etnográfica sempre estiveram presentes na filmografia nacional, ao menos do ponto de vista cientifico.

Neste sentido, notamos o tênue limite entre os filmes ambiental e etnográfico. Para exemplificar, cito um clássico do cinema etnográfico mundial: o filme “Nanook of the North”, (1920), do antropólogo irlandês Robert Flaherty, que conviveu e registrou, durante o período de três anos, o modo de vida de uma família de esquimós do Norte do Canadá. O filme é tido como o pioneiro a criar uma narrativa dramática para contar uma “história”, um fato real, mas quem conta a história é o observado e não o observador, o “antropólogo-cineasta”. Utilizando a fórmula narrativa “início, meio e fim”, agregada à idéia de um personagem que representasse o mocinho, o herói; com inserções de seqüências de suspense, o filme se tornou uma referência.

O antropólogo conseguiu construir uma história linear sobre como era a vida daquele homem de cultura tão diferente da sua. No material, que seria levado à universidade, posteriormente, para demonstração e defesa de tese de Flaherty, a trama é protagonizada pelo chefe da família, Nanook, que se torna o herói da história durante o decorrer do filme, mais precisamente, quando vai à caça de uma morsa para alimentar sua mulher e filho. Sem muitas conjecturas, podemos crer que ele é o herói do filme, lutando contra as impossibilidades mesmas de seu meio natural, hostil pelo excesso de frio e escassez de comida. Ele é o herói contra a condição humana à qual foi submetido, tendo que se adaptar e influir na cadeia ecológica, naturalmente, como um elemento totalmente integrado a ela. Nanook é transformado aos olhos de Roberty Fly no mocinho contra a hostilidade natural do meio, que seria o bandido.
Nessa mesma época, o clássico de B. Malinowski, The Argonauts of the Western Pacific, publicado em 1922, propunha uma nova maneira interpretativa sobre a observância do “outro”, do “estranho”, do “diferente”. O que ele defendia fazia parte dos pensamentos mais modernos, que surgiam nos, ainda muito jovens, centros de antropologia e ciências sociais da Europa: tentar compreender e ver a realidade do ponto de vista do nativo, inverter as posições de observador e observado. Máxima que até hoje é uma das bases do trabalho de campo dos antropólogos e cientistas sociais. Malinowski utilizou, consideravelmente para seu tempo, o recurso fotográfico em seus trabalhos de campo, embora a fotografia ainda estivesse distante de ser introduzida como um suporte nessa prática. Registros onde também foram utilizadas fotografias como banco de dados para análises cientificas podem ser encontrados nos trabalhos dos antropólogos Marcel Griaule, que na década de 30, filmou diferentes regiões da África, e Margaret Mead e Gregory Bateson, com suas experiências em Bali, entre os anos de 1936 e 1939.
Assim, devemos entender como filme ambiental não apenas uma proposta de abordagem ecologicamente engajada de temáticas que destacam questões como preservação ambiental e escassez de água no planeta nas próximas décadas. Devemos compreendê-lo, sobretudo, como um “tema” que abarca diversos elementos, onde o mais importante deles é o elemento humano, capaz de, uma vez impondo sua presença na Terra, modificar, ao longo de milênios, o ambiente natural terrestre, para adaptá-lo a si e não o inverso, como acontecia com Nanook, que não tinha como escolher entre o ferro e a madeira para construir sua casa, feita da única matéria-prima de que dispunha naquele ambiente inóspito: gelo.

O elemento humano e toda sua cultura complexa e múltipla presente nos cinco continentes são o ponto chave para a compreensão da história do meio ambiente e da própria história da espécie humana. Também por isso não podemos dissociar cultura e meio ambiente quando falamos em cinema ambiental.

Na década de 80, há um reaparecimento de títulos que contemplam a temática ambiental, mas ainda uma temática estritamente relacionada ao meio ambiente ligado ao campo, às áreas rurais, ao modo de vida dos camponeses. Foi, finalmente, após a Rio Eco-92, que a produção de filmes que contemplavam o meio ambiente e o meio cultural voltaram a ter fôlego. Nos anos 80, militantes de esquerda, que organizaram os primeiros suspiros do que seriam mais tarde as TVs comunitárias, já se preocupavam em registrar as relações do homem com o meio. Foi quando apareceram as primeiras experiências de projetos em Comunicação Popular, onde o enfoque na construção de uma metodologia de ensino para os moradores (possíveis agentes multiplicadores do conhecimento, como conhecemos conceitualmente hoje), pudessem ser os vetores de transmissão de uma nova consciência crítica sobre seus papéis sociais de e seus direitos e deveres enquanto cidadãos. Foi daí também, que surgiu a idéia de sociedade cidadã. A cidadania, o respeito à diversidade cultural e as diferentes etnias estão diretamente relacionados ao meio ambiente e à conjuntura sócio-economica e política de uma nação. Por isso, esses temas tornam-se recorrentes em pesquisas acadêmicas, roteiros de reportagens jornalísticas, em documentários e obras literárias. Trata-se de um novo momento político, onde urge a necessidade de criação de novas leis para cada um desses temas: meio ambiente, multiculturalismo e tolerância étnico-cultural, e cidadania. Agregado a tudo isso, a introdução das novas tecnologias de áudio e vídeo invadem o mercado mundial, instaurando um novo paradigma comunicacional, diferente do que vivemos hoje com a internet, mas que já preconizava as mudanças profundas que nossa sociedade iria viver ao longo das três ultimas décadas.

Obviamente, numa sociedade de imagens, seria justamente o vídeo o instrumento de reforço discursivo das elites a favor da manipulação das massas. Estas, sem acesso a espaço na grande mídia. Percebendo a enorme possibilidade de trabalhar a inclusão social dos excluídos através da arte e da comunicação, inúmeros projetos aparecem em diferentes estados brasileiros, sobretudo em centros urbanos, enfocando a participação popular na produção de programas jornalísticos, em documentários e até mesmo em filmes ficcionais, experimentais.

O filme ambiental não é apenas o retrato da natureza “morta”, afinal o homem está o tempo todo pintado nessa tela, e em movimento. Os traumas de sociedades carentes urbanas estão cada vez mais presentes em roteiros de novos realizadores, que partem para uma análise documental do cotidiano de jovens de comunidades de risco, dando vez ao seu discurso de revolta.

O cinema ambiental é urbano também. Ao registrar a maneira de viver, a arquitetura, a cultura, o discurso de moradores de favelas de zonas centrais de grandes metrópolis como o Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo, o diretor nada mais está fazendo do que adentrar um outro meio (ambiente-social), geralmente degradado pela total falta de planejamento territorial, espacial, urbanístico.

FICA e MONVIA encaixaram calendário
Independentemente da boa intenção de poucos, o fato é que festivais de cinema ambiental se tornaram um grande negócio para os que se adiantaram e perceberam que ai estava um nicho ainda não explorado, e que, com a internet, inclusive, poderia encontrar mais facilidade para se expandir. Empresas e indústrias estão preocupadas em respeitar a lei de Responsabilidade Social, e o Poder Público finalmente percebeu a importância de um evento que se integra totalmente à discussão do tema meio ambiente, e o quão importante o mesmo poderia ser se estivesse permanentemente inserido no calendário das ações que se somam aos programas de educação ambiental do governo.

Amanhã será a abertura do Festival Internacional de Cinema Ambiental (FICA), que este ano está na oitava edição, afirmando o sucesso do evento, em uma cidade que já fora a capital de Goiás – deixou de ser nos anos 40 - e hoje tem o título de Patrimônio Histórico da Humanidade concedido pela UNESCO. O festival exibirá 27 filmes, de 12 países, e o público esperado é de 200 mil pessoas. O FICA é o festival que dá a maior premiação da América Latina; são R$ 240 mil em prêmios.

Em Iraquara, na Chapada Diamantina (BA), a 460 quilômetros de Salvador, acontece o Festival Latino Americano de Vídeo Ambiental. Promovido pelo governo do estado, Irdeb e prefeitura, o festival realiza shows, oficinas e uma série de atividades para a comunidade local, que participa expressivamente da programação da semana do Meio Ambiente.

O ECOCINE, em São Paulo, o mais antigo festival de cinema ambiental do Brasil, realizado pela primeira vez em 1992 e interrompido por dez anos, é outra referência.

Inédita é a Mostra Nacional de Vídeo Ambiental de Vilha Velha (ES), que começa nesta quarta-feira, 7, e vai até o dia 10. Este é o primeiro ano do evento, que acontecerá durante a IV Feira da Terra, uma feira ambiental que recebe a participação de estudantes e comunidade.

Programação Televisiva
Baleia Verde. Este foi o nome do primeiro programa da TV brasileira sobre meio ambiente. O infantil foi ao ar em 1989, mas não permaneceu mais que um ano nas telas. No ano seguinte, o Globo Ecologia, que está até hoje no ar, entrou em cartaz, sendo o mais completo programa de TV da época a abordar o tema com destaque. A Rede Bandeirantes também teve um programa do gênero; o Meio Ambiente Urgente, que, posteriormente passou a se chamar Repórter Eco, no ar há 13 anos.

Claro que as emissoras educativas, como a TVE, no Rio e a Cultura, em São Paulo não poderiam deixar de incluir em suas programações reportagens especiais sobre o tema.

Para os admiradores do trabalho da jornalista especializada em meio ambiente, Paula Saldanha, que produz com seu marido, o cinegrafista Roberto Werneck, o programa Expedições, há alguns anos, a TVE exibirá uma série de programas especiais durante toda a semana. Veja no site da emissora mais informações: http://www.tve.com.br/.

Na TV Cultura, a semana do Meio Ambiente, que começou no último dia 30 e termina hoje, no Dia Mundial do Meio Ambiente, foi lembrada com uma programação intensa de documentários e reportagens que deram ênfase a preservação ambiental. Destaco a exibição do filme “O cineasta da selva”, sobre a vida de Silvino Santos, de Aurélio Michilis, exibido durante a programação.

segunda-feira, maio 29, 2006

Um convite a vaguear...



Por que a gente faz cineclubismo? - essa coisa maluca que é exibir, louvar, discutir, pensar e imaginar imagens em movimento?

É Porque quando a gente dança de olhos fechados, sozinhos em meio a uma pista de dança qualquer, nós vemos imagens! Imagens que nos cantam ao pé do ouvido: imagens, imagens e imagens.

E de onde vem essa necessidade? Você vê os músicos, eles também ouvem a sina de sua arte em seus ouvidos, eles também experimentam dessa angústia. Mas o ofício deles existe a milhões de anos. As pessoas praticamente nascem cantando. Imagine um músico que um dia acorda achando que nada tem sentido, vendo a vida como aquilo mesmo e decidindo pela inércia. Para se salvar, ele pode evocar uma ancestralidade fudida. Ele pode evocar o toque que Bach deu em Deus, ele pode cantar e chamar as cantadoras de coco de Sergipe para si; se for com fervor, o bater de um tambor pode fazer cair o Maranhão naquele corpo descrente, e as células ritmicas originárias daquela terra vão fazer presente a África, com seus bandos errantes, em pleno festival da Carne.

Mas e nós cineastas? Nossa arte tem cem anos, ainda não nos distanciamos o suficiente para que criemos mitos, símbolos e lendas. Ainda é possível imaginar um papo com Glauber no boteco da esquina. Há quem podemos recorrer quando tudo ficar muito pequeno? E por que as imagens não param de dançar em nossos ouvidos? De onde elas vêm?

Voltemos então ao nosso bando Neanderthal errante e nômade:
Estamos na África a aproximadamente 40 mil anos atrás. Depois de um dia duro de caminhada e de um honesto rango, um silêncio instaura-se em volta da fogueira, apenas o barulho do estalar dos galhos no fogo fazem companhia ao pequeno que recebe carinho da mãe e aos que admiram as infinitas estrelas deitados na relva. Um dos mais velhos olha a fogueira em profundidade, suspira e, rompendo o silêncio e a escuridão, começa a contar uma história que um velho ancião contava quando ele era apenas um moleque. Uma história de tempos imemoriais…
O pequeno, protegido pela mãe, perde o olhar marejado pelo cansaço na fogueira. Sob o som hipnótico da narrativa o pequeno vai longe, vai para muito longe dali.


Então é isso caros cineclubistas/cineastas: temos peso, história e carga. Temos a quem evocar quando tudo parecer simulado. O imagético já está no ar há muito tempo.

E quer saber a verdade? Não existem cineclubistas, cineastas, artes plásticas, músicos e teatros. Não existe Mate com Angu, Cachaça, Curta o Curta, Nós do Cinema, Beco do Rato, Vídeovídeo, Cine Guandu, Cinema com Batuque, Sobrado Cultural, Atacadão, Malditos Filmes Brasileiros, Cavídeo e tantos outros. Tudo isto são apenas botons presos a uma jaqueta que um dia estará fora de moda.

O que existe é este bando errante e metamorfoseante de uma mesma malha de afinidades. E é o brilho no olhar, o mesmo tesão e o mesmo amor que te faz integrante! A idéia é que nossa atividade seja a fogueira em meio à savana escura. Somos um festival de liberdade, de foda-se e de algo a mais. É isso; nos vemos ao rair do dia.

Igor Barradas
cineclube mate com angu
cinema para uma melhor digestão.